/ Costurando sonhos: emprego e dignidade para migrantes.

ago 13, 2019
Costurando sonhos: emprego e dignidade para migrantes.

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Há milhares de anos que mulheres de diversas classes sociais aprendem a cortar, medir, costurar e confeccionar moldes. Quando chegou a máquina de costura, foi uma pequena revolução que até hoje em dia tem profundas consequências. 

Após essa pequena-grande revolução, as casas também começaram servir de espaço para suas labores profissionais com suas máquinas de costura. 

O trabalho de mulheres anônimas e simples começou ganhar força e visibilidade em espaços públicos, propondo um outro modo de produção, abrindo um espaço para o trabalho feminino e sua participação no mercado laboral, favorecendo as mulheres na sua autonomia e independência. Mas o Código Civil de 1916 ainda as obrigava, dentre outras limitações que hoje são consideradas absurdas, quando casadas, a solicitar autorização de seus maridos para trabalhar fora.

A respeito desse auge e inovação, mulheres conseguiram realizar o deslocamento da casa para a fábrica, mas as fábricas já apresentavam dificuldades para a inserção nos locais de trabalho, limitando as contratações pelo nível educacional, pelo gênero, e onde os artesãos e alfaiate conseguiam essas vagas de trabalho, para assim deixar novamente a mulher cumprindo um papel social de servidão e de reprodução familiar. 

No caso das Mulheres migrantes internacionais, ter sua máquinas de costura ainda é em muitos casos um caminho de libertação e sobrevivência, já que podem trabalhar em casa, sem burocracias nem documentação. 

Hoje em dia, século XXI, a indústria da moda é um resultado permeado por essas costureiras que utilizaram seu trabalho como uma ferramenta de emancipação. Da mesma maneira, a indústria da moda está permeada por práticas indignas e ilegais de algumas fábricas que mantém o trabalho equivalente ao escravo em oficinas de costura aqui no Brasil e no mundo, estando também, em muitas ocasiões, ligadas à máfia do tráfico de migrantes internacionais em situação de vulnerabilidade.

Com certeza falta regulamentação dos trabalhos informais e a fiscalização daqueles precarizados. Precisamos visibilizar a responsabilidade social por parte de governos, empresas, todas e todos os cidadãos para ter dignidade humana e uma inserção da diversidade em condições adequadas no campo laboral. Sabemos que é um caminho em que ainda falta muito por recorrer, mas que estamos construindo a cada dia com maior participação de todas as partes.

Convido em primeira instância a saber mais sobre outras culturas, reaprender a utilizar as palavras que, muitas vezes sem percebermos, ferem a dignidade de pessoas migrantes e refugiadas, a olhar e escutar com empatia, com respeito. A diversidade está enchida de potências para o país, para as empresas e para o desenvolvimento das relações pessoais. 

Conquistar uma vida profissional satisfatória é uma conquista difícil, e quando se é migrante internacional em situação de vulnerabilidade é mais difícil ainda a diferença da língua, a falta de redes de apoio e de contatos, a regulamentação de documentação, validação de títulos e diplomas e sobre todo a abertura das pessoas para conviver com a diferença.  

Vamos nos sensibilizar e apoiar as ações que contribuem para que estas pessoas, e em especial estas mulheres, possam receber as oportunidades que merecem para frutificar de maneira digna em todos os campos da terra?

Verònica Gálvez Collado. Consultora do Eixo de Imigração e Refúgio.