{"id":2761,"date":"2022-04-13T11:57:07","date_gmt":"2022-04-13T14:57:07","guid":{"rendered":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/?p=2761"},"modified":"2024-10-21T11:57:48","modified_gmt":"2024-10-21T14:57:48","slug":"latina-lesbica-e-branca-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/latina-lesbica-e-branca-no-brasil\/","title":{"rendered":"Latina, L\u00e9sbica e Branca no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Quando cheguei ao Brasil, soube o que significava viver como imigrante e passar a reconhecer as diferentes culturas, l\u00ednguas e, sobretudo, desigualdades que existem por falta de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e oportunidades no trabalho formal. Por ser latina, mas branca, algumas possibilidades no cotidiano se abriram mais facilmente para mim. Contudo, essa passabilidade s\u00f3 se sustentava at\u00e9 eu abrir a boca: quando me ouviam falando, as mesmas rea\u00e7\u00f5es preconceituosas vinham \u00e0 tona.<\/p>\n<p>Com meus documentos regularizados \u2013 lembrando que na pr\u00e1tica, a regulariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o garante os direitos e prote\u00e7\u00e3o social \u2013 e sem carteira assinada, fui rejeitada em v\u00e1rios empregos pela d\u00favida do meu estado migrat\u00f3rio, ouvindo frases tais como \u201cvoc\u00ea est\u00e1 ilegal no Brasil?\u201d, \u201cvoc\u00ea pretende estar aqui por muito tempo? n\u00e3o queremos ter problemas com voc\u00ea, n\u00e3o sei se posso contrat\u00e1-la\u201d, \u201cvoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 de aqui, n\u00e9?\u201d, \u201c\u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o entende como que \u00e9 aqui\u2026\u201d at\u00e9 frases como \u201cpessoas estrangeiras vem tirar o trabalho das pessoas que nasceram neste pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Entendemos que estas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o reproduzidas por falta de informa\u00e7\u00e3o e conhecimento, como tamb\u00e9m pela falta de empatia. N\u00f3s, pessoas que chegam ao Brasil, somos uma parcela pequena \u2013 cerca de 1,1 milh\u00f5es \u2013 em compara\u00e7\u00e3o com as pessoas brasileiras que moram no exterior \u2013 em torno de 4,2 milh\u00f5es. Por isso (e por v\u00e1rios outros motivos), continuar a reprodu\u00e7\u00e3o de que viemos para roubar trabalhos ou procurar ter mais privil\u00e9gios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas brasileiras n\u00e3o s\u00e3o corretas. \u00c9 importante entender que estamos aqui para colaborar com o desenvolvimento econ\u00f4mico do pa\u00eds, oferecendo nossas pot\u00eancias, habilidades e destreza. Pagamos impostos diretos e indiretos, contribuindo com o financiamento dos servi\u00e7os p\u00fablicos como qualquer pessoa dentro do territ\u00f3rio. Com esses fatos em mente, comento algumas perspectivas sobre o processo laboral que iniciei aqui no Brasil.<\/p>\n<p>Inicialmente, aceitei trabalhos informais e passei por situa\u00e7\u00f5es que constrangeram minha exist\u00eancia pela necessidade de conseguir uma renda para sobreviver. Comecei esta trajet\u00f3ria como entregadora de refei\u00e7\u00f5es em bicicleta, sem qualquer prote\u00e7\u00e3o trabalhista, e finalizei com problemas de sa\u00fade \u2013 artroses nos joelhos, que foram agravadas pelo trabalho. Ainda bem que o acesso ao SUS me ajudou a ter o tratamento fisioterap\u00eautico adequado. Depois disso, impossibilitada de continuar entregando refei\u00e7\u00f5es, trabalhei como massagista em megaeventos, onde as dificuldades foram outras. Recebia diversas propostas sexuais \u2013 feitas por empres\u00e1rios de diversas regi\u00f5es do Brasil \u2013 e escutava frases que se repetiam cerca de 20 vezes por dia, como por exemplo: \u201co melhor do Chile s\u00e3o as mulheres e o vinho\u201d. Isso sem contar o silenciamento da minha sexualidade, j\u00e1 que o ambiente cis heteronormativo era \u201csutilmente\u201d imposto nestas empresas.<\/p>\n<p>Estas situa\u00e7\u00f5es e palavras me afetaram psicologicamente, ativando gatilhos infelizmente comuns a muitas de n\u00f3s -pelo simples fato de sermos mulheres \u2013 algo que ainda pode ser mais agravado quando nossa orienta\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o faz parte da norma, como \u00e9 o meu caso. Terminei saindo destes trabalhos por n\u00e3o sentir seguran\u00e7a e, sobretudo, pela \u201cnormaliza\u00e7\u00e3o\u201d das empresas sobre o ass\u00e9dio sexual que acontecia diariamente. \u00c9 bem verdade que, no Brasil,\u00a0 consta na Constitui\u00e7\u00e3o que toda pessoa pode identificar-se e expressar seu g\u00eanero e sexualidade e ser reconhecida e respeitada. Por\u00e9m, como sabemos, isso nem sempre corresponde \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>Neste pa\u00eds, consegui enxergar n\u00e3o s\u00f3 as diferen\u00e7as sobre as categorias migrat\u00f3rias e entre os grupos que comp\u00f5em a comunidade LGBTQIA+, como tamb\u00e9m as diferen\u00e7as de tratamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 identidade \u00e9tnico-racial: fazer parte da popula\u00e7\u00e3o branca e cisg\u00eanera me proporcionou v\u00e1rias reflex\u00f5es dessa interseccionalidade individual enquanto transitava em\u00a0 diversos cen\u00e1rios sociais e culturais.<\/p>\n<p>Narrar do local de fala do privil\u00e9gio \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o paradoxa, fundada nas rela\u00e7\u00f5es hierarquicamente categorizadas pelas ra\u00e7as desde a col\u00f4nia, e que serviram historicamente para legitimar o que n\u00f3s, pessoas brancas cis, usufruimos em detrimento da popula\u00e7\u00e3o negra e ind\u00edgena. Esta opress\u00e3o, contudo, pode ser consciente, inconsciente ou deliberadamente \u00a0 confort\u00e1vel do hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>Estar no meio do caminho do privil\u00e9gio amplia as possibilidades de compreens\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao local que habita-se:\u00a0<b>no meu caso, o de uma mulher que pertence \u00e0 comunidade LGBTQIA+, em movimento migrat\u00f3rio, e que levanta bandeiras de (re)exist\u00eancia e cria espa\u00e7os de fortalecimento. Mas como pessoas brancas cisg\u00eaneras, o que estamos fazendo com o poder do nosso privil\u00e9gio?\u00a0<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 fundamental reconhecer as nossas pr\u00f3prias intersec\u00e7\u00f5es e entender que, dependendo do cen\u00e1rio que transitamos e da atitude que tomemos, podemos tanto desconstruir ou continuar sendo c\u00famplices da discrimina\u00e7\u00e3o normalizada, seja nas institui\u00e7\u00f5es onde trabalhamos ou nos espa\u00e7os privados. As m\u00faltiplas formas de viol\u00eancia atingem diretamente as pessoas que s\u00e3o diversas, seja na sua sexualidade, identidade de g\u00eanero, diferen\u00e7as \u00e9tnico-raciais, classe, defici\u00eancia, diferen\u00e7as geracionais, status migrat\u00f3rio e outros grupos que t\u00eam sido minorizados e continuamente oprimidos pela sociedade durante toda a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Cada pessoa possui um lugar na sociedade, como tamb\u00e9m, responsabilidades como agentes de transforma\u00e7\u00e3o para construir uma cultura mais inclusiva. Estando no meio do caminho, continuo a luta e reivindica\u00e7\u00e3o e deixo expl\u00edcito a branquitude que habita em mim. E, deste lugar e para este lugar das pessoas que identificam-se como brancas, falo: \u00e9 urgente rever, descristalizar e desmontar as nossas camadas de privil\u00e9gio para reconhecer o ac\u00famulo hist\u00f3rico de riquezas que nos foi dada e deixar de se esconder na ideologia da meritocracia.<\/p>\n<div><\/div>\n<div class=\"the_champ_sharing_container the_champ_horizontal_sharing\" data-super-socializer-href=\"https:\/\/integradiversidade.com.br\/latina-lesbica-e-branca-no-brasil\/\">\n<div class=\"the_champ_sharing_title\"><\/div>\n<div class=\"the_champ_sharing_ul\"><\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando cheguei ao Brasil, soube o que significava viver como  [&#8230;]<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":2763,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23,24,26,25],"tags":[],"class_list":["post-2761","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-diversidade","category-lideranca","category-linkedin","category-negocios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2761","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2761"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2761\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2764,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2761\/revisions\/2764"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2763"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2761"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2761"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2761"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}