{"id":2721,"date":"2020-04-02T11:48:48","date_gmt":"2020-04-02T14:48:48","guid":{"rendered":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/?p=2721"},"modified":"2024-10-21T11:49:25","modified_gmt":"2024-10-21T14:49:25","slug":"nos-mulheres-negras-a-potencia-em-movimentar-as-estruturas-e-transformar-os-sistemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/nos-mulheres-negras-a-potencia-em-movimentar-as-estruturas-e-transformar-os-sistemas\/","title":{"rendered":"N\u00f3s, Mulheres Negras: a pot\u00eancia em movimentar as estruturas e transformar os sistemas"},"content":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia 9 de mar\u00e7o, lan\u00e7amos, na PUC-SP, o livro\u00a0<em>Ra\u00e7a e G\u00eanero: discrimina\u00e7\u00f5es, interseccionalidades e resist\u00eancias.\u00a0<\/em>Uma colet\u00e2nea de di\u00e1logos ricos entre pesquisadoras e pesquisadores negros e n\u00e3o negros a fim pensarmos conjuntamente o lugar das mulheres negras na sociedade brasileira e, a partir da\u00ed, tamb\u00e9m possibilidades.<\/p>\n<p>Logo de in\u00edcio, ainda no processo de organiza\u00e7\u00e3o da colet\u00e2nea, esbarramos na dificuldade em encontrar professoras negras para falarem sobre o tema dentro da institui\u00e7\u00e3o, o que revelou como a academia brasileira, espelhando todos os outros espa\u00e7os de poder, ainda \u00e9 branca, apesar de n\u00e3o ser esta a cor predominante da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o estamos l\u00e1, pois estamos. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, seja por meio de lutas individuais e solit\u00e1rias, num embate bastante desigual, oneroso e doentio as nossas exist\u00eancias; seja pela luta do movimento negro que, dentre tantos ganhos, conquistou a\u00e7\u00f5es afirmativas como as cotas raciais, \u00e9 poss\u00edvel constatarmos uma mudan\u00e7a nas cores das universidades brasileiras \u2013 ocupa\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para conquistarmos novos espa\u00e7os na sociedade. Por\u00e9m, quando analisamos o quadro de docentes, o n\u00famero de professoras e professores negros \u201cainda n\u00e3o ultrapassou os 16%,<a href=\"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/nos-mulheres-negras-a-potencia-em-movimentar-as-estruturas-e-transformar-os-sistemas-2\/#_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0mesmo sendo esta a cor da maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira\u201d. Esse percentual s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 pior do que o 4,7% do quadro de executivos negros no Brasil e do 0,4% de mulheres negras nesses cargos.<a href=\"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/nos-mulheres-negras-a-potencia-em-movimentar-as-estruturas-e-transformar-os-sistemas-2\/#_ftn2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Esses dados revelam como o bin\u00f4mio ra\u00e7a-g\u00eanero nos coloca em esquinas atravessadas de vulnerabilidades, viol\u00eancias e discrimina\u00e7\u00f5es. Afinal, somos mais suscet\u00edveis \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 pobreza aqui ou em qualquer outra parte do mundo.<\/p>\n<p>De acordo com o\u00a0<em>Atlas da Viol\u00eancia\u00a0<\/em>(2019)<a href=\"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/nos-mulheres-negras-a-potencia-em-movimentar-as-estruturas-e-transformar-os-sistemas-2\/#_ftn3\">[3]<\/a>, no Brasil, em 2017, foram registrados 4.936 assassinatos de mulheres, com um aumento de 20,7% na taxa nacional entre 2007 e 2017. Ainda segundo o\u00a0<em>Atlas<\/em>, esse aumento se deu por conta do n\u00famero de homic\u00eddios de mulheres negras, que cresceu mais de 60% em uma d\u00e9cada, em compara\u00e7\u00e3o com um crescimento de 1,7% de mulheres n\u00e3o negras. Al\u00e9m disso, no mercado de trabalho, somos as que ganham menos e as que det\u00eam a maior taxa de desemprego, segundo outro estudo do Ipea de 2017.<a href=\"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/nos-mulheres-negras-a-potencia-em-movimentar-as-estruturas-e-transformar-os-sistemas-2\/#_ftn4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o para por a\u00ed, porque as viol\u00eancias sobre n\u00f3s tamb\u00e9m afetam nossa juventude, j\u00e1 que s\u00e3o os filhos de mulheres negras, assim como eu, os mais suscet\u00edveis a morrerem violentamente. A cada 23 minutos um jovem negro \u00e9 assassinado no Brasil. Repito. A cada 23 minutos um jovem negro \u00e9 assassinado no Brasil.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" class=\"lazyload wp-image-414\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%27http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%27%20width%3D%27514%27%20height%3D%27342%27%20viewBox%3D%270%200%20514%20342%27%3E%3Crect%20width%3D%27514%27%20height%3D%27342%27%20fill-opacity%3D%220%22%2F%3E%3C%2Fsvg%3E\" data-orig-src=\"https:\/\/integradiversidade.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_5690-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"514\" height=\"342\" \/><figcaption>Foto: Ugo Sartori<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>E o que esses dados podem nos revelar para al\u00e9m de estat\u00edsticas apenas? Que o Brasil ainda n\u00e3o resolveu seu passado colonial, muito pelo contr\u00e1rio, ele est\u00e1 vivo e, pelo que tudo indica, renovando-se e adaptando-se a todo momento nas estruturas \u201cditas\u201ddemocr\u00e1ticas. Ainda, diz sobre a sociedade estruturada pelo racismo e pelo patriarcado que nos colocam em lugares t\u00e3o espinhosos e, mesmo com toda a den\u00fancia que tais dados confessam, a estrutura social mantem-se sobre os nossos ombros, marcando-nos, limitando nossos passos, nossos sonhos, nossas experi\u00eancias humanas.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre os nossos ombros que se encontra o peso de uma sociedade machista, racista e classista e, portanto, s\u00e3o esses lugares repletos de priva\u00e7\u00f5es e perdas que tamb\u00e9m se encontram possibilidades in\u00fameras. Afinal, sobreviver e viver em categorias sociais que n\u00e3o foram constru\u00eddas por n\u00f3s, nem para n\u00f3s, enche nossas experi\u00eancias de conhecimentos e saberes sobre viver aqui e l\u00e1 que podem nos ajudar a pensar outra sociedade.<\/p>\n<p>Viver em espa\u00e7os \u2013 f\u00edsicos, sociais e simb\u00f3licos \u2013 t\u00e3o diminutos nos permite construir saberes e viv\u00eancias que qualquer ideia de uma sociedade mais justa precisa levar em considera\u00e7\u00e3o. Mulheres negras e ind\u00edgenas n\u00e3o s\u00e3o feitas apenas de faltas. E, como bem diz Angela Davis, \u201cquando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, seja para pensar pol\u00edticas p\u00fablicas, pol\u00edticas de inclus\u00e3o e diversidade em ambientes corporativos, inova\u00e7\u00f5es que extrapolem o que est\u00e1 dado, an\u00e1lises e retratos minimamente reais sobre a sociedade brasileira ou at\u00e9 mesmo perspectivas em tempos de crise e pandemia, n\u00f3s, mulheres negras, precisamos estar l\u00e1.<\/p>\n<p>Mulheres negras t\u00eam se organizado de forma colaborativa desde sempre, j\u00e1 que elas n\u00e3o s\u00f3 necessitam desse apoio em suas vidas como sabem da import\u00e2ncia de constru\u00edrem parceiras. Ainda, vivendo em lugares marginais, precisam a todo tempo construir conhecimento sobre si mesmas e possibilidades de ultrapassarem os limites impostos a elas, como tamb\u00e9m compreender o que se diz e se faz no centro, pois \u00e9 l\u00e1 que os donos do poder vivem e decidem sobre suas vidas.<\/p>\n<p>Nossas vidas transpassadas por viol\u00eancias tamb\u00e9m nos permitem construir personalidades potentes, j\u00e1 que, desde nossa chegada aqui como mulheres escravizadas, estamos lutando por sobreviv\u00eancia e por dignidade, tentando romper as barreiras impostas a n\u00f3s. \u00c0 exemplo, aquelas com as quais tenho o prazer de compartilhar minha exist\u00eancia. S\u00e3o m\u00e3es, acad\u00eamicas, artistas, construtoras de suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Sim, somos abundantes e cheias de dignidade. Vivemos e falamos de diversos lugares e formas e n\u00e3o nos enquadramos em categorias t\u00e3o \u00ednfimas constru\u00eddas por quem n\u00e3o consegue ver o \u00f3bvio, que mulheres negras sempre resistiram e sempre resistir\u00e3o, seja aqui ou em qualquer outro lugar, como nossas experi\u00eancias, quando vistas por olhares que transcendem o racismo e seus desdobramentos, comprovam.<\/p>\n<p>Afinal, como diz Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, uma das nossas homenageadas do livro que abre esta discuss\u00e3o, \u201cEles combinaram de nos matar, mas n\u00f3s combinamos de n\u00e3o morrer\u201d.<\/p>\n<p>Sim\u00e9ia Mello. Diretora do Instituto Ella Cria\u00e7\u00f5es Educativas e Consultora-Parceira da Integra Diversidade no Eixo de Ra\u00e7a e Etnia.<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p><a href=\"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/nos-mulheres-negras-a-potencia-em-movimentar-as-estruturas-e-transformar-os-sistemas-2\/#_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/g1.globo.com\/educacao\/guia-de-carreiras\/noticia\/2018\/11\/20\/negros-representam-apenas-16-dos-professores-universitarios.ghtml&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/nos-mulheres-negras-a-potencia-em-movimentar-as-estruturas-e-transformar-os-sistemas-2\/#_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.ethos.org.br\/cedoc\/perfil-social-racial-e-de-genero-das-500-maiores-empresas-do-brasil-e-suas-acoes-afirmativas\/&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/nos-mulheres-negras-a-potencia-em-movimentar-as-estruturas-e-transformar-os-sistemas-2\/#_ftnref3\">[3]<\/a>Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.ipea.gov.br\/atlasviolencia\/&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/nos-mulheres-negras-a-potencia-em-movimentar-as-estruturas-e-transformar-os-sistemas-2\/#_ftnref4\">[4]<\/a>\u00a0Dispon\u00edvel: &lt;http:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=29526&gt;.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia 9 de mar\u00e7o, lan\u00e7amos, na PUC-SP, o  [&#8230;]<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":2723,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23,24,26,25],"tags":[],"class_list":["post-2721","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-diversidade","category-lideranca","category-linkedin","category-negocios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2721","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2721"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2721\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2724,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2721\/revisions\/2724"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2723"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2721"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2721"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2721"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}