{"id":2685,"date":"2019-09-25T11:29:34","date_gmt":"2019-09-25T14:29:34","guid":{"rendered":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/?p=2685"},"modified":"2024-10-21T11:33:53","modified_gmt":"2024-10-21T14:33:53","slug":"feminino-ou-masculino-quem-decide","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/en\/feminino-ou-masculino-quem-decide\/","title":{"rendered":"Feminino ou masculino: quem decide?"},"content":{"rendered":"<p>Assim que cheguei no Brasil, 16 anos atr\u00e1s, falando apenas duas palavras: \u201cobrigada\u201d e \u201cgarota\u201d (gra\u00e7as ao Tom Jobim), me dei \u00e0 tarefa de aprender r\u00e1pida e corretamente esta l\u00edngua maravilhosa.<\/p>\n<p>Para quem estudou antropologia, como eu, o aprendizado de um novo idioma n\u00e3o \u00e9 apenas um ato de comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma util\u00edssima ferramenta de descobrimento, n\u00e3o s\u00f3 da cultura na qual se est\u00e1 mergulhando, mas tamb\u00e9m da l\u00edngua e da origem de um povo; mostra nuances surpreendentes ou realidades escancaradas que muitas vezes passam despercebidas para quem j\u00e1 nasce nesse contexto.<\/p>\n<p>Felizmente para mim, o meu espanhol nativo \u00e9 suficientemente parecido com o portugu\u00eas para atingir rapidamente um n\u00edvel de comunica\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel. E dentre as muit\u00edssimas coisas que compartilhamos como descendentes do latim est\u00e1 o fato de dividirmos o mundo por g\u00eanero: masculino ou feminino. \u00c9 uma loucura para quem fala ingl\u00eas, por exemplo. Quem decidiu que \u201ctelefone\u201d \u00e9 masculino? Quem disse que \u201ctelevis\u00e3o\u201d seria uma palavra no feminino? Por qu\u00ea?<\/p>\n<p><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n<p>Por que as nossas generaliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o no masculino? Mesmo com 99 mulheres e um homem, o que as nossas l\u00ednguas querem destacar \u00e9 a preemin\u00eancia da presen\u00e7a do homem por cima de qualquer n\u00famero de mulheres. Eis \u201cos cientistas descobriram a cura\u201d e, mesmo sabendo que pode haver mulheres na equipe de cientistas, \u00e9 inevit\u00e1vel o nosso c\u00e9rebro visualizar um grupo todo de homens em batas brancas e com \u201ccara de inteligentes\u201d.<\/p>\n<p>Como tamb\u00e9m levo a s\u00e9rio o assunto dos idiomas, dou aulas de neg\u00f3cios em espanhol e ingl\u00eas e aproveito para instigar, testar, inspirar e at\u00e9 para pesquisar. H\u00e1 muito tempo fiz um experimento muito simples. Pedi para uns amigos da Col\u00f4mbia escreverem cinco palavras para descrever o objeto \u201c\u00e1rvore\u201d e pedi o mesmo para algumas pessoas da turma de alunos aqui no Brasil.<\/p>\n<p>O pequeno experimento deu o resultado que eu esperava. Como a palavra \u00e9 masculina em espanhol (el \u00e1rbol) e feminina em portugu\u00eas (a \u00e1rvore), os termos de cada grupo diferiram bastante e refletiram as caracter\u00edsticas que se associam ao g\u00eanero da palavra. Em espanhol as palavras foram coisas como: forte, f\u00e1lico, protetor, resistente etc. Em portugu\u00eas foram: fecunda, frut\u00edfera, m\u00e3e natureza, vida. O mesmo objeto e vis\u00f5es muito diferentes. A profundidade como o idioma modela o nosso entendimento do mundo \u00e9 impressionante mesmo.<\/p>\n<p><strong>Feministas chatas<\/strong><\/p>\n<p>Por isso, o que muitas pessoas acham uma discuss\u00e3o chata das feministas \u00e9, de fato, uma das categorias de an\u00e1lise e um dos territ\u00f3rios de mudan\u00e7a mais importantes dentro da conquista para a equidade entre seres humanos. Pois a l\u00edngua n\u00e3o s\u00f3 reflete a nossa estrutura e a vis\u00e3o de mundo, como influencia nossa capacidade de entend\u00ea-lo e imagin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Desta forma, t\u00eam surgido v\u00e1rias alternativas para contornar, desafiar ou modificar a exig\u00eancia do g\u00eanero e a masculiniza\u00e7\u00e3o dos plurais. Por exemplo, o uso do @ como forma de incluir feminino e masculino na mesma palavra: \u201camig@s\u201d. H\u00e1 outras pessoas que preferem a letra xis para eliminar o g\u00eanero: \u201camigxs\u201d \u2013 ambas as op\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o amig\u00e1veis aos leitores eletr\u00f4nicos para pessoas com vis\u00e3o reduzida ou nula. Ou, ent\u00e3o, quem use o \u201ce\u201d para neutralizar o g\u00eanero: \u201camigues\u201d. E h\u00e1 quem opte pelo longo caminho de especificar por separado: \u201camigos e amigas\u201d. H\u00e1 tamb\u00e9m quem domine a arte do portugu\u00eas e consiga para usar generaliza\u00e7\u00f5es que abarquem todo mundo: \u201co ser humano\u201d em lugar de \u201co homem\u201d, as \u201cpessoas gestoras\u201d em vez de \u201cos gestores\u201d etc. As possibilidades s\u00e3o variadas e dependem do p\u00fablico a quem v\u00e3o dirigidas.<\/p>\n<p><strong>Mulherada vs. Homarada<\/strong><\/p>\n<p>Da mesma forma me intriga o porqu\u00ea da exist\u00eancia da palavra \u201cmulherada\u201d e n\u00e3o existir \u201chomarada\u201d. Talvez porque reflete um esfor\u00e7o por esconder as nossas diferen\u00e7as? Por que assim fica mais f\u00e1cil ditar o que toda mulher supostamente deve querer, desejar, fazer, almejar e esconder? Porque, uma vez tratadas como rebanho, botar na cabe\u00e7a que mulher est\u00e1 feita para concorrer e minar uma \u00e0 outra, e internalizada tal condi\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 mais f\u00e1cil conduzir e influenciar? \u201cBroderagem\u201d, que passa pano e cala sobre qualquer transgress\u00e3o entre homens nem entra na discuss\u00e3o.\u00a0<em>Boys will be boys<\/em>.<\/p>\n<p>Enfim, fica exposto o debate e o questionamento: at\u00e9 que ponto as nossas l\u00ednguas podem e devem refletir as mudan\u00e7as na cultura e na sociedade? At\u00e9 que ponto queremos fazer com que a nossa l\u00edngua n\u00e3o seja uma l\u00edngua que perpetue o machismo e, sim, uma que mostre e valorize as nossas diferen\u00e7as e especificidades? Sim! \u00c9 poss\u00edvel. Vamos tentar?<\/p>\n<p>Keyllen Nieto. Fundadora e Consultora S\u00eanior da Integra Diversidade.<\/p>\n<p>*Este texto foi publicado originalmente no site Pau Pra Qualquer Obra, em junho de 2013, com umas poucas modifica\u00e7\u00f5es para atualiza\u00e7\u00e3o de contexto:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.paupraqualquerobra.com.br\/\">www.paupraqualquerobra.com.br<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim que cheguei no Brasil, 16 anos atr\u00e1s, falando apenas  [&#8230;]<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":2687,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23,24,26,25],"tags":[],"class_list":["post-2685","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-diversidade","category-lideranca","category-linkedin","category-negocios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2685","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2685"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2685\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2688,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2685\/revisions\/2688"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2687"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2685"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2685"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/integradiversidade.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2685"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}